OPBB OPBB - Ordem dos Pastores Batistas do Brasil
 

A OPBB, por determinação da Assembléia Geral realizada em Teresina, em janeiro de 2006, solicitou a suas 31 seções que debatessem o assunto "Filiação de pastoras". Este debate foi importante como preparo e fundamento para que a Assembléia Geral de Florianópolis, em janeiro de 2007,  que acabou por não aceitar a filiação das pastoras na Ordem. Em 2006, quando do debate, o então presidente da Ordem e o secretário geral, pastores David Baeta e Juracy Bahia escreveram sobre o assunto.  

ALARGANDO AS FRONTEIRAS DA MENTE (I) David Baeta Motta

Tenho lido alguns livros e artigos especializados que falam sobre fronteiras mentais que estabelecemos e das quais temos dificuldades de nos livrar. Em outras palavras, o que quero dizer como resultado do que tenho lido, e em especial observado em minha experiência como conselheiro e terapeuta da mente, é que as pessoas em sua grande maioria têm dificuldades de pensar. Elas encontram uma espécie de zona de conforto em seus pensamentos polarizados no “sim ou no não”. Por exemplo, certa vez Jesus recebeu a seguinte pergunta de alguns discípulos seus, sobre um cego de nascença: “Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” Observe que os discípulos estavam polarizados nesta questão. De um lado estava a possibilidade do cego ter sido o pecador ativo para que tal mal lhe acontecesse. Do outro lado, residia a possibilidade dos pais dele terem pecado. Ambos os pólos teriam seus ferrenhos defensores que defenderiam seus pontos de vista até a exaustão, morte, divisão do grupo, etc. O que quero dizer é que eles não viam outras possibilidades. Diante do impasse e dos perigos presentes em pontos de vista polarizados, Jesus, o Mestre da sabedoria, dá uma resposta fantástica tanto em si mesma quanto em suas amplas aplicações. Em sua resposta, Jesus amplia os horizontes do fato mostrando que entre o “sim” e o “não”, entre o “ele” ou “seus pais” há possibilidades outras a se pensar. Jesus disse de modo categórico: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus”. Fantástico, realmente fantástico. Acho que o grupo dos 12 polarizados ficou tremendamente surpreso. – Como não pensamos nisto antes? Tão fácil e tão distante de nós (imagino que eles pensaram assim).

Jesus estava a ensinar que a verdadeira inteligência é aquela que consegue transitar entre os pólos e ver outras possibilidades. O grande Rabi ensinava a arte de pensar através das circunstâncias e exemplos simples da vida. Ele ensinava sobre o alargamento das fronteiras da mente humana.

Quero citar um outro exemplo bíblico, mas preciso antes dizer onde quero chegar. Temos um assunto que circula há algum tempo em nossa denominação que é a ordenação de mulheres para o ministério da Palavra. Penso que o incômodo deste assunto para alguns (ou muitos) pode se transformar em conforto, caso ambos os pólos se desarmem (os do “sim” e os do “não”) e, quem sabe, ao estilo de Jesus, pensem em outras possibilidades. Confesso que tenho pedido isto a Deus não somente pelo fato de ser presidente da OPBB, mas em especial pelo fato de me propor a aprender com alguém manso e humilde de coração.

Pois bem, meu outro exemplo bíblico encontra-se em Atos 5. 28-39 (leia este texto e depois continue a leitura deste artigo). Diante da pública pregação dos discípulos e da confrontação presente na mensagem, o capitão do templo e os principais dos sacerdotes tomaram uma decisão radical: Vamos “matar” este assunto (matando os discípulos). Terrível isso, não é? Diante do radicalismo levanta-se um homem respeitado por todos, um doutor da lei, cujo nome era Gamaliel. Homem sóbrio, homem que sabia transitar entre pólos, homem de fronteira mental alargada. Santo Gamaliel! Um fariseu que me fez repensar o meu mal-estar contra os fariseus. Citando exemplos da história recente dos judeus, ele mostra uma “inteligência espiritual” em altíssimo nível: “Se esta obra se desfizer ela é obra de homens, mas se não se desfizer é porque é de Deus e não devemos nos achar combatendo contra Deus”. No verso 40 do texto em tela, encontro uma expressão que considero como uma das mais belas da Bíblia: “e concordaram com ele”.

Chego então ao meu ponto principal quanto ao assunto acima posto. Como tenho orado para que Deus levante um “gamaliel” que nos ajude a alargar nossas fronteiras mentais quanto a este assunto de ordenar ou não mulheres ao ministério da Palavra. Alguém, que com respeito a Deus e sua vontade, nos mostre um caminho que não seja meramente “matar” este assunto.

Ordenação Feminina, perda de tempo

Juracy Carlos Bahia

O pastor Xavier, ao saber que tinha um câncer, fez publicar no boletim da IB Memorial da Tijuca um artigo de John Piper que menciona dez situações em que uma pessoa desperdiça o câncer, tipo: você desperdiçará seu câncer se você se recusa a pensar em morte, se você passa mais tempo lendo sobre seu câncer do que lendo sobre Deus, se você trata o pecado tão casualmente como antes. O fato é que podemos desperdiçar situações que geram preocupações, em vez de aprender e crescer. Bonhoeffer já dizia: "Dez anos são na vida de qualquer homem um longo tempo. Sendo o tempo o bem mais precioso, porque irrecuperável, entre todos os bens dos quais dispomos, inquieta-nos, ao recordarmos o passado, a idéia de tempo eventualmente perdido. Considera-se perdido o tempo em que não vivemos como homens, tempo em que não obtivemos experiências, não aprendemos, não realizamos, nem desfrutamos nem sofremos nada. Tempo perdido é tempo vazio que não foi preenchido" (Resistência e Submissão).

Pois bem, o que isto tem a ver com ordenação feminina? O fato é que podemos passar este tempo de debate e não aprendermos nada. Pode ser apenas mais um daqueles tempos perdidos em que se debate horas sobre uma frase do estatuto e no ano seguinte o parágrafo inteiro é substituído ou eliminado.

Parafraseando John Piper, desperdiçaremos nosso tempo se não compreendermos que a unidade do corpo é maior que qualquer que seja o resultado da votação. Se aprovarmos aceitar pastoras na OPBB, alguns podem ficar tão contrariados que pensarão em abandonar a comunhão com os colegas, como se a OPBB estivesse cometendo uma profanação. Se não aprovarmos, corremos o risco dos que defendem a ordenação feminina romperem e criarem uma segunda Ordem de Pastores, mesmo tendo amigos antigos na OPBB. A história está cheia dessas aberrações. Olhamos para o passado e não entendemos como foi que chegaram àqueles absurdos. O Senhor deixou claro que casa dividida não prospera, mas muitas vezes esquecemos isto tudo para defender nossa opinião particular.

Desperdiçaremos nosso tempo se não aperfeiçoarmos o nosso discernimento. A bíblia diz que o pecado cega, ou seja, quanto melhor for a nossa comunhão com o Senhor, melhores serão nossas chances de “ver” corretamente as questões. Por que o Senhor não deixou este ponto totalmente claro? Por que não disse algo tipo: “não podeis servir a Deus e aceitar pastoras”? Ele nos advertiu sobre tantos perigos do futuro, mas nos deixou sozinhos para este debate – e tantos outros. Certamente ele quer que exercitemos a capacidade de debater assuntos do Reino sem nos dividir. Vejamos o que a Igreja de Jerusalém fez com a polêmica de Antioquia. Vejamos a alegria que resultou de um debate feito por pessoas que estavam perto do Senhor. O que é espiritual discerne bem todas as coisas. Este não é o primeiro nem será o último grande debate que teremos. Vamos desperdiçar esta oportunidade e não aperfeiçoar nosso discernimento espiritual?

Desperdiçaremos nosso tempo se não ampliarmos nossa capacidade de tolerar. Podemos aceitar a decisão da Assembléia e, ainda assim, continuarmos tão intolerantes quando antes. Neste caso, ficaremos apenas esperando o novo debate para expressarmos quão partidários somos. William Barclay lembra as palavras solenes que Cromwell dirigiu aos escoceses intransigentes: "Rogo-vos pelas ternas misericórdias de Cristo: pensai que é possível que estejais enganados" (As Obras da Carne e o Fruto do Espírito). Se fôssemos tão intolerantes com o pecado como o somos com algumas idéias ou mesmo doutrinas, desperdiçaríamos menos.

Desperdiçaremos nosso tempo se não refletirmos. Podemos fazer deste debate como alguns eleitores fazem: votando nulo. Podemos nem pensar no assunto e “seja o que Deus quiser”. Quando não temos liberdade, brigamos e morremos pelo direito de tê-la. No entanto, corremos o risco de perdemos a oportunidade de estudar o tema, debater, aprender, formar conceitos, estabelecer juízos. Isto nos prepararia para outros debates no futuro que poderão ser ainda mais contundentes.